Atualiza Parto FEBRASGO: destaques sobre “Complicações no parto vaginal”

Compartilhe a publicação
Atualiza Parto FEBRASGO: destaques sobre “Complicações no parto vaginal”

06 dez. de 2025

Complicações do parto vaginal” foi o tema da sessão 03 do Atualiza Parto da FEBRASGO. Nela, o Dr. Elias Ferreira de Melo Junior, presidente da CNE de Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério, abordou o uso do vácuo extrator na assistência ao parto expulsivo. Em sua fala, ele destacou que, no Brasil, a tradição sempre foi utilizar mais o fórceps do que o vácuo — uma herança da prática norte-americana. Nos Estados Unidos, até cerca de 25 anos atrás, esse era o padrão. Na Europa, de modo geral, sempre houve maior utilização do vácuo em relação ao fórceps.

Ele ressaltou que vários estudos mostram que a curva de aprendizado do fórceps é muito mais complexa. “Se você faz 100 aplicações de fórceps, ainda não pode se sentir inteiramente seguro. Eu acho que a primeira barreira é do profissional, mais do que o estigma da população.”

O médico relembrou sua primeira experiência com o instrumento: “O primeiro uso de fórceps que fiz na minha vida, há 25 anos, foi um verdadeiro sufoco. Quando eu disse: ‘vamos fazer’, pedi o instrumento… mas muitos colegas da pediatria acreditavam que o uso do fórceps iria comprimir a cabeça da criança e aumentar o risco de desfechos negativos.” Segundo ele, essa crença deriva do fato de que muitos profissionais, pouco habilidosos no uso do fórceps, tentavam evitar o parto operatório a todo custo e acabavam lançando mão do instrumento apenas como última tentativa, em situações já hipóxicas e além da zona de segurança.

“Por isso, grande parte do problema relacionado ao fórceps está no treinamento — e treinamento não é simples. E não é uma questão só do Brasil; é um desafio mundial, inclusive nos Estados Unidos.”

Ele acrescentou que, atualmente, para cada cinco vácuos realizados, faz-se apenas um fórceps. “Não digo isso com satisfação. Acho ruim que o uso do fórceps tenha declinado. Até porque a realidade brasileira é que não temos vácuo disponível em todos os locais. Um dia, o Ministério da Saúde vai se convencer da importância desse equipamento e vai distribuí-lo. Mas, até que esse dia chegue, é fundamental que o residente saia treinado tanto em vácuo quanto em fórceps”. A proposta é que todo GO se sinta confortável com ambos os instrumentos. “Na impossibilidade de se sentir seguro com o fórceps, é melhor realizar a vácuo-extração do que indicar uma cesárea no período expulsivo, o que é extremamente prejudicial para as pacientes”, conclui.

A Dra. Marair Gracio Ferreira Sartori, presidente da CNE de Uroginecologia e Cirurgia Vaginal, palestrou sobre lesões perineais e deixou um recado claro: “Os profissionais que assistem ao parto precisam estar atentos, pois toda laceração deve ser corrigida. É fundamental conhecer a anatomia muscular, reconhecer quando há uma rotura e saber repará-la adequadamente, porque isso reduz as sequelas futuras dessas mulheres. É saber identificar a lesão, saber estruturá-la e, sobretudo, não menosprezá-la — para mim, isso é o mais importante”, declara.

 

Anemia: um rastreio fundamental

O Dr. Gabriel Costa Osanan, vice-presidente da CNE de Urgências Obstétricas, ministrou a aula “Hemorragia pós-parto: novas estratégias no manejo”. Ele apresentou estatísticas sobre mortalidade materna e foi contundente ao afirmar: “Não dá mais para não rastrear anemia na gravidez.” Para ele, a desigualdade de gênero, o contexto sociocultural e o papel dos parceiros ou parceiras na família devem ser considerados quando o assunto é hemorragia pós-parto. A importância do pré-natal deve ser reforçada, pois é essencial para impulsionar políticas públicas que reduzam a morte materna por hemorragia pós-parto.

O Dr. Gabriel trouxe diversos pontos abordados no Consolidated guidelines for the prevention, diagnosis and treatment of postpartum haemorrhage, documento assinado pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia, pela Confederação Internacional de Parteiras e pela Organização Mundial da Saúde – para consulta, acesse: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/88bf11a5-93b6-4d6b-bdaa-856b46c8ed3c/content

Dentro desse contexto, foram apresentados alguns pontos de reflexão para o GO, entre eles o Blood Patient Management e o protocolo ERAS em obstetrícia. Entre as novidades terapêuticas, está a carbetocina, um análogo sintético da ocitocina com ação prolongada e termoestável. “Mas atenção: é para prevenção, não para tratamento”, reforça.

Outros aspectos abordados pelo Dr. Gabriel:

  1. O tratamento medicamentoso com ácido tranexâmico terapêutico;
  2. O tratamento compressivo não cirúrgico, como o traje antichoque não pneumático – veja matéria sobre o assunto: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/2232-urgencia-obstetrica-ministerio-da-saude-reitera-parceria-com-febrasgo;
  3. O balão de tamponamento — que não é novidade para muitos, mas pode ser novidade em alguns locais;
  4. O tamponamento uterino a vácuo;
  5. O balão de BAKRI a vácuo;
  6. O dispositivo a vácuo em tubos;
  7. O mini sponge.

Sobre o tratamento cirúrgico, ele discutiu as suturas compressivas e a cirurgia de controle de danos, que integra o conceito de ressuscitação de controle de danos. Bundles funcionam? Em sua apresentação, mostrou modelo que reduz em até 60% as hemorragias pós-parto.

 

Treino e trabalho conjuntos

A Dra. Sue Yazaki Sun, presidente da CNE de Doença Trofoblástica Gestacional, falou sobre “O treinamento de equipes no manejo da distocia de ombro”. Entre 70% e 90% dos casos de distocia de ombro não há fatores de risco identificáveis — ou seja, pode ser em evento imprevisível, mas a resposta da equipe não pode ser improvisada. Por isso, o treinamento bem conduzido reduz complicações. “Time que treina junto, trabalha junto”, afirma a Dra. Sue.

Ela recomenda fortemente o treinamento recorrente com simulação em modelos realísticos, a proatividade da equipe, a revisão teórica e a liderança e comunicação efetivas. “Isso evita estresse da equipe, comunicação caótica e perda de tempo com tentativas desordenadas diante do evento.” Para ela, programas estruturados de treinamento são possíveis de serem adaptados à realidade brasileira com baixo custo e alto impacto na redução do trauma materno-fetal.

Para conferir o Position Statement da FEBRASGO sobre distocia de ombro, acesse:
https://www.febrasgo.org.br/images/pec/posicionamentos-febrasgo/FPS—N7—Julho-2022—portugues.pdf#:~:text=Para%20o%20tratamento%20da%20distocia%20de%20ombro%2C,press%C3%A3o%20suprap%C3%BAbica%20externa%20(manobra%20de%20Rubin%20I).

 

Trabalhar em conjunto e sob as mesmas diretrizes

O Dr. Olímpio Barbosa de Moraes Filho, vice-presidente da Região Nordeste da FEBRASGO, foi um dos coordenadores da mesa “Complicações do parto vaginal”. Para ele, todo GO precisa “estudar, estudar e treinar”, pois, em algumas ocasiões, o parto pode ser complicado. “E os palestrantes abordaram justamente esses pontos: a lesão perineal, a distocia de ombro e a hemorragia pós-parto”, pontuou.

A Dra. Ana Cynthia Paulin Baraldi, da Organização Pan-Americana da Saúde, e coordenadora da sessão ao lado do Dr. Olímpio, reforçou que as novas diretrizes representam um avanço importante: “Elas colocaram na mesma mesa enfermeiras, parteiras e médicos. Assim, é possível acabar com recomendações e protocolos separados e criar um guia único a ser seguido por todos. Questões com menos evidência foram reestudadas; algumas recomendações foram reavaliadas, outras alteradas, outras somadas. O recado é claro: as mulheres precisam parar de morrer por causas evitáveis. E isso só será possível se trabalharmos juntos — diagnosticando precocemente, tratando adequadamente e seguindo as mesmas recomendações”, conclui.

Veja mais conteúdos

Teste genético que identifica mutações hereditárias para câncer de mama fará parte do SUS Notícias Ver notícia
Teste genético que identifica mutações hereditárias para câncer de mama fará parte do SUS

20 maio. de 2026

Leite materno: verdadeira vacina natural contra infecções, alergias e diversas doenças Notícias Ver notícia
Leite materno: verdadeira vacina natural contra infecções, alergias e diversas doenças

19 maio. de 2026

FEBRASGO alerta: implantes hormonais manipulados não têm comprovação de segurança e eficácia Notícias Ver notícia
FEBRASGO alerta: implantes hormonais manipulados não têm comprovação de segurança e eficácia

18 maio. de 2026

Comissão aprova audiência pública sobre má prática obstétrica com participação da FEBRASGO Notícias Ver notícia
Comissão aprova audiência pública sobre má prática obstétrica com participação da FEBRASGO

15 maio. de 2026

LGBTQIA+: Fertilidade ainda é discutida tarde demais e pode ser comprometida por hormônios e cirurgias Notícias Ver notícia
LGBTQIA+: Fertilidade ainda é discutida tarde demais e pode ser comprometida por hormônios e cirurgias

15 maio. de 2026

Violência sexual: avanço em medicação profilática esbarra no acesso e na adesão, alerta ginecologista da FEBRASGO Notícias Ver notícia
Violência sexual: avanço em medicação profilática esbarra no acesso e na adesão, alerta ginecologista da FEBRASGO

15 maio. de 2026

Nota FEBRASGO – CADERNETA BRASILEIRA DA GESTANTE Notícias Ver notícia
Nota FEBRASGO – CADERNETA BRASILEIRA DA GESTANTE

14 maio. de 2026

Dia das Mães: FEBRASGO destaca a importância do cuidado obstétrico seguro e contínuo Notícias Ver notícia
Dia das Mães: FEBRASGO destaca a importância do cuidado obstétrico seguro e contínuo

08 maio. de 2026

Endometriose exige atenção e acompanhamento para evitar impactos na saúde feminina Notícias Ver notícia
Endometriose exige atenção e acompanhamento para evitar impactos na saúde feminina

07 maio. de 2026

Audiência pública no Senado debate avanços no enfrentamento aos cânceres de ovário e do colo do útero Notícias Ver notícia
Audiência pública no Senado debate avanços no enfrentamento aos cânceres de ovário e do colo do útero

06 maio. de 2026

AMB celebra 75 anos com lançamento da pedra fundamental de sua nova sede em São Paulo Notícias Ver notícia
AMB celebra 75 anos com lançamento da pedra fundamental de sua nova sede em São Paulo

05 maio. de 2026

Silencioso e agressivo, câncer de ovário ainda é descoberto tarde na maioria dos casos Notícias Ver notícia
Silencioso e agressivo, câncer de ovário ainda é descoberto tarde na maioria dos casos

04 maio. de 2026