Anel vaginal: por que um método tão eficaz ainda “não pega” no Brasil — e quem mais se beneficia

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Anel vaginal: por que um método tão eficaz ainda “não pega” no Brasil — e quem mais se beneficia

12 fev. de 2026

Especialista da FEBRASGO traz orientações

 

Moderno, prático e com eficácia semelhante à pílula, o anel vaginal segue pouco conhecido e subutilizado no Brasil. O motivo não é falta de benefício clínico: ausência no SUS, barreiras culturais, custo e mitos ainda travam a adoção do método. Em entrevista no formato perguntas e respostas, a ginecologista Dra. Cristina Aparecida Falbo Guazzelli, da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO, explica as vantagens, uso correto e motivos que afastam as mulheres do anel.

1) O que é o anel vaginal e por que ainda é pouco utilizado no Brasil?

O anel vaginal é um método anticoncepcional hormonal que é inserido pela própria mulher na vagina e libera hormônios de forma contínua, garantindo contracepção ao longo do ciclo de uso. Mesmo sendo um método seguro e eficaz, ainda é pouco conhecido e pouco utilizado no Brasil, especialmente quando comparado a países como Estados Unidos e alguns países da Europa, como a Espanha, por uma combinação de fatores — não por um único motivo:

  • Acesso e custo: o anel não é oferecido gratuitamente pelo SUS.
  • No SUS, as mulheres têm acesso a pílulas, injeções, DIU de cobre, preservativos e, mais recentemente, implante.
  • Nas farmácias, o custo costuma variar entre R$ 60 e R$ 100 por mês, o que pode pesar no orçamento.
  • Para usar o anel, a mulher precisa colocar o dispositivo com as próprias mãos. Em muitos contextos, tocar o próprio corpo ainda é tabu, o que pode gerar insegurança, medo ou rejeição. São as barreiras culturais.
  • Mitos e desinformação: dúvidas e crenças equivocadas afastam possíveis usuárias, como:
    • “O anel vai se perder dentro do meu corpo” (isso não acontece, porque a vagina é um canal fechado)
    • “Vou sentir o anel o tempo todo”
    • “O anel pode cair se eu fizer força ou for ao banheiro”
    • “Meu parceiro vai sentir o anel durante a relação”

Um ponto positivo é que o aumento do uso do coletor menstrual, especialmente entre mulheres jovens, mostra que o contato com o próprio corpo está se tornando mais natural para parte da população, o que pode favorecer maior aceitação do anel no futuro.

2) Para quais perfis de mulheres o anel vaginal pode ser uma boa opção?

Para aquelas que podem usar anticoncepção hormonal com estrogênio. Dentro desse grupo, ele costuma ser especialmente vantajoso para: (1) quem esquece a pílula com frequência, já que o anel é colocado uma vez por mês e retirado após três semanas; (2) mulheres com problemas gastrointestinais (gastrite intensa, úlcera, doenças intestinais) ou que fizeram cirurgia bariátrica: como o hormônio não passa pelo estômago/intestino, tende a ser mais regular e causar menos desconforto nesses casos; (3) para aquelas com sangramentos fora do período menstrual ao usar pílulas: por liberar hormônios de forma mais estável, pode ajudar a reduzir sangramentos inesperados em algumas pacientes, e; (4) e para mulheres que valorizam discrição e praticidade: não fica visível (como adesivo) e não exige tomar comprimidos todos os dias.

3) Quais são as vantagens do uso do anel em comparação com a pílula oral?

A principal vantagem está na forma de liberação hormonal: o anel libera pequenas quantidades de hormônio de forma contínua e constante, ajudando a manter níveis hormonais mais estáveis. Isso pode contribuir para melhor controle do ciclo menstrual, diminuição de efeitos colaterais como enjoo, dor de cabeça e mal-estar (em algumas mulheres), uso de doses menores de hormônio. Destaco aqui que pode melhorar a lubrificação e ajudar a evitar ressecamento — efeito esperado, já que o hormônio age localmente.

4) O anel interfere na relação sexual, na lubrificação ou no conforto?

Quando bem colocado, o anel costuma ser confortável, seguro e não interferir na rotina nem na vida sexual da maioria das mulheres. A entrada da vagina é mais sensível, mas a parte interna tem menor sensibilidade; por isso, quando o anel fica mais interno, ele se ajusta ao corpo e tende a não incomodar.

A FEBRASGO reforça que um bom aconselhamento em saúde é fundamental: explicar com clareza, acolher dúvidas e desmistificar medos ajuda cada mulher a escolher o método mais adequado para sua realidade — e, quando indicado, o anel vaginal pode ser uma opção prática, discreta, eficaz e confortável.

Entre as novidades relacionadas ao assunto está o lançamento de anéis vaginais termoestáveis, anéis para uso anual (Annovera aprovado pela FDA) e estudos de anéis com medicações associadas. A pauta será debatida no 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, que acontece de 27 a 30 de maio, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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